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samedi 24 octobre 2015

O Homem de Preto. Johnny e June.



“Se um caminhão te atropelasse, se estivesse morrendo, caído na sarjeta e tivesse tempo de cantar uma música. A qual lembrassem de você antes de virar pó, uma que mostrasse a Deus o que achou da sua vida aqui na terra, uma música que lhe resumisse, qual seria? Esse é o tipo de música que as pessoas querem ouvir. Esse é o tipo de música que realmente salva as pessoas.”

O pequeno J.R. não teve uma infância fácil. Seus pais trabalhavam no campo e ele os ajudava muito. Trabalhava de sol a sol, sem descanso. Um dia por semana seu pai o liberava para ir pescar junto com seu irmão, Jack. Este queria seguir a missão do sacerdócio, sendo assim, lia a Bíblia todos os dias. Apesar de ser apenas um pouco mais velho, ele era o herói de J.R. Porém, em um dia quente, Jack Cash, ainda criança, se foi. Uma dor que J.R. levaria consigo para sempre.

O tempo passou, J.R. cresceu. Só seus familiares o chamavam assim. No serviço militar ele compunha e tocava violão em seu tempo livre. Cantava histórias sobre prisões, pessoas poderosas, sobre como elas não estavam nem aí para os outros, sobre a desigualdade no mundo, sobre o sofrimento. O serviço militar acabou, ele se casou e arrumou um emprego como vendedor. Apesar de se esforçar muito no trabalho, J.R. não se encaixava nele. Não era bom naquilo.

Ele era bom em outro emprego, em outro lugar, em outra arte. Sua alma cantava sua tristeza e o mundo precisava conhecer sua melodia. O pequeno J.R. cresceu, seu nome era John. Ele estava prestes a se tornar Johnny Cash.

Dirigido por James Mangold, Johnny e June (Walk the Line) é um drama biográfico americano de 2005, que conta a história do músico Johnny Cash, um dos mais importantes do cenário country. O filme foi muito bem recebido pela crítica e levou para casa: Globo de Ouro, categoria de melhor filme e o Oscar de melhor atriz para Reese Whiterspoon, além de mais quatro indicações ao Oscar daquele ano. O elenco do filme conta com Joaquin Phoenix, como Johnny Cash, Reese Witherspoon, como June Carter, Ginnifer Goodwin, como Vivian Cash, Robert Patrick, como Ray Cash e Ridge Canipe, como o Johnny Cash na infância.

Johnny Cash, depois de uma infância com muito sofrimento, passagem pelo serviço militar, finalmente consegue fazer o que nasceu para fazer, cantar e tocar, fazer arte, fazer música! Em uma de suas turnês ele conhece a cantora que ouvia quando criança, que também era criança na época, June Carter. Os dois se tornam muito amigos.

Apesar de seus problemas com drogas, a mágoa que carrega de seu pai e um casamento problemático, Johnny dedica sua vida ao que faz de melhor, cantar. Foi assim que se tornou um ícone não só da música country, mas da música americana. Esse é “O Homem de Preto”.

Com uma excelente atuação de Joaquin Phoenix, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, a atuação impecável de Reese Witherspoon, que levou o prêmio de melhor atriz para casa, e com uma trilha sonora muito bem escolhida e cantada, Johnny e June não é um filme apenas para os fãs da música de Cash, mas também para aqueles que procuram um bom filme dramático.

Um filme para entender a trajetória do músico e de como Johnny passou por cima de tudo para cantar. Porém, chega uma hora que cantar não é mais o bastante, ele quer amar. Ele está apaixonado por sua melhor amiga, June. Recomendo!

Clique aquipara ver o trailer.



samedi 10 octobre 2015

Whiplash - Em Busca da Perfeição.



“A verdade é, acho que as pessoas não entendiam o que eu estava fazendo no Conservatório Shaffer. Eu não estava lá para reger. Qualquer idiota balança os braços e mantém a banda no ritmo. Eu estava lá para empurrar as pessoas para além do que se espera delas”

Perfeição. Normalmente a maioria das pessoas acham que quando alguém faz algo extremamente bem, é porque aquilo é um dom. A pessoa nasceu com aquilo, está fadada a executar o que faz com maestria. É o destino dela. Ela nasceu para aquilo. Ledo engano.

Na verdade, perfeição é o conjunto de esforço, sacrifício, paixão, dedicação e acima de tudo, força de vontade. Perfeição é uma escolha, não um destino. Se você quer ser perfeito em algo, quer ser o melhor, não importa onde esteja ou como faça aquilo que quer dominar com maestria, se você se doar por inteiro a essa causa, você alcançará o seu objetivo.

Andrew, um estudante baterista de jazz pensava assim. Ele queria ser grande, um dos grandes, um dos maiores. Sabia que precisaria de sacrifícios e ele estava disposto a fazê-los. Todos.

Dirigido por Damien Chazelle, Whiplash – Em Busca da Perfeição é um filme dramático norte americano de 2014. O filme foi muito premiado, levou para casa dois Prêmios no Sundance, um Globo de Ouro, três no BAFTA e, para coroar as premiações, três estatuetas do Oscar: Melhor Ator Coadjuvante para J.K. Simmons, Melhor Mixagem de som e Melhor Edição. O filme conta em seu elenco com Miles Teller, como Andrew Neiman, J.K. Simmons, como Terence Fletcher, Paul Reiser, como pai de Andrew e Melissa Benoist, como Nicole.

Andrew Neiman é um jovem baterista, estudante do conservatório Sheffer, um dos melhores dos Estados Unidos. Ele sonha em marcar sua geração, ser melhor baterista do seu tempo, ele quer marcar seu nome na história, igual a seu maior ídolo Buddy Rich. Andrew é muito dedicado e se esforça muito.

Em um ensaio, ele chama atenção do maestro da banda principal do conservatório, Terence Fletcher, que decide colocá-lo em sua banda. Andrew fica extremamente feliz, tocará na banda principal do conservatório!

Porém, ele precisará chegar a níveis extremos. Flecther é extremamente exigente, duro e perfeccionista. A pressão psicológica exigida pelo maestro é gigantesca. O que Andrew fazia não era dedicação, era treino perto das exigências de Fletcher.

O filme merece todos os prêmios que levou, principalmente o Oscar atribuído a J.K. Simmons, que atuou de maneira incrível como maestro Tarence Flecther. A trama te prende do começo ao fim, desde os treinos de Andrew às exigências de seu maestro. Um filme que te faz pensar se você está realmente lutando por aquilo sonha, se está fazendo o bastante para atingir sua meta, se você realmente quer a grandeza, habitar entre os melhores.

Dom não existe. O que existe é a determinação.

Não acredite que as pessoas que fazem algo com perfeição nasceram com essa habilidade, porque não é verdade. Elas treinaram muito, dedicaram muito tempo à causa, sentem a paixão correr por suas veias, elas respiram o objetivo.

Suor, lágrimas, sangue, dedicação, força de vontade, foco, abrir mão de muita coisa. Essa é a receita da perfeição, da grandiosidade, do olimpo. Recomendo!

Clique aqui para ver o trailer.



vendredi 31 juillet 2015

Sobre o fim do que não acaba nunca


Nunca mais escrevi sobre você. Pra falar a verdade, já faz algum tempo que venho tentando não escrever sobre coisa alguma. É porque eu sei que não adianta fugir, qualquer trecho que eu tente escrever sem que estejas presente nas entrelinhas, é em vão. Qualquer frase que fale de amor, ou de saudade, ou de qualquer coisa que eu contenha em mim, por certo acabará entrando pra coleção cuja você é o destinatário, ou protagonista. Você sempre foi meu personagem favorito. Você sempre foi minha maior extravagância.

Nunca fui boa em começar textos, você sabe disso. Eu sempre comecei pelo final. Mas se você estiver lendo isso agora, quero te dizer que hoje, eu fiz diferente. Não quis saber como acabaria, não quis saber se faria sentido, porque afinal, se tem uma coisa que aprendi nesses últimos  meses - desde que você saiu por aquela porta e nunca mais voltou - é que nem todo fim faz sentido. Apesar de eu sentir tanto.

É que tem fim que parece injusto. Como aqueles filmes lindos que são uma droga no final, porque não tem um fim. Quer dizer, tem, mas, um fim mal resolvido, um fim que não cabia, um fim deslocado, como um ponto final no meio da frase. Nem todo ponto final é justo. Mas, também, nem todo ponto final significa, de fato, um fim. Existe sempre uma outra linha, outra página. Talvez, um outro livro.

As palavras podem terminar em uma frase, mas elas nunca acabam. E nessa existência não aplicada cabe tanta coisa. Terminar um amor é como um poema que termina na metade, feito aquele livro "Uma aflição imperial". Feito os olhos de ressaca de Capitu, que terminaram com o fim de Dom Casmurro, sem nunca revelarem a verdade. É muito difícil terminar uma coisa que não acaba. Cê tá me entendendo? Espero que sim.

É que hoje eu me peguei pensando, entre todas essas lições de que nem tudo é como a gente quer, que também, nem tudo deixa de existir porque a gente deixa de acreditar. O fato de alguém ser ateu não vai mudar a existência de Deus. O fato de eu rejeitar a teoria copernicana, não vai fazer com que a Terra pare de girar. Uma rosa sempre vai ser uma rosa, independente de como a chamarmos. Da mesma forma, o amor não acaba só porque a gente acabou.

O fim do amor é triste, porque existe velório e luto, mas não existe morte. O que existe, é o desespero de tentar enterrar vivo um sentimento, que nunca para de rebater.
Hoje eu acordei e me lembrei de você. Hoje eu decidi escrever e achei que conseguiria colocar um ponto final...

Não consegui






jeudi 2 juillet 2015

Eu aprendi a ser amada de verdade

Você entrou e segurou o meu coração na mão. Eu sangrava e implorava por um pouco de atenção enquanto você o apertava até que ele cair no chão, em pedaços. Eu pensei que a nossa história era de amor enquanto participávamos de uma tragédia grega.
Eu aprendi. Aprendi a não chamar tanto a atenção. A não cobrar de quem não quer se comprometer. A me virar. A ser auto suficiente. A não precisar do seu aval para qualquer situação vivida por mim.
Mudei meu coração de endereço e só levei o que não me pesaria as costas. Achei novos amores que não deram muito certo e depois achei um que era a minha cara, impossível ser mais perfeito. Achei até a minha auto estima que ficou pairando no ar depois de ser resgatada do fundo do poço. Aprendi a ouvir as músicas com mais atenção, percebi que eu era capaz de muito mais do que você determinou que eu seria. Eu saí do seu caminho e espero que você consiga sair rapidamente do meu. Eu sei que a estrada é escura quando estamos sozinhos, mas você é capaz. Se eu fui, qualquer um é.
O amor que eu sempre quis já morava dentro de mim e eu estava louca pra poder dar vazão a esse sentimento lindo que você recusou tantas e repetidas vezes. Mesmo com a praga que você rogou, eu tô aqui amando e sendo amada. E mesmo se não estivesse, eu saberia que em algum momento alguém ia perceber que o meu coração é do tamanho do mundo e que se eu sofri muito é porque eu era capaz de dar muito mais que o seu ego era capaz de receber.
Troquei a roupa, troquei a nossa foto emoldurada por um retrato que fizeram de mim. Troquei até a foto da minha identidade porque eu não consigo reconhecer aquela moça da foto antiga da época que ainda estava presa a um amor unilateral - que você, curiosamente, não abria mão nem a pau.
Eu chorei por meses. Chorei tanto que achei que eu ia acabar secando as lágrimas algum dia. Chorei alto e você até debochou do que eu sentia enquanto você dizia que não. Chega um momento que a gente cansa de chorar e parte pra briga. A minha briga foi comigo mesma, pra deixar pra trás uma história com um roteiro pobre, cheio dos clichês e cheia dos erros de continuidade. Eu deixei de dirigir a minha vida por medo da sua invadir a minha história novamente, o que não vai acontecer nunca mais. Deixei no meio do caminho até o livro que você me deu com dedicatórias engraçadinhas sobre a vida, sobre uma parte de mim que não existe há muito tempo. Eu te deixei porque descobri que o amor é muito mais simples que os seus joguinhos de manipulação emocional. Descobri que o amor é rico, que o amor é bom e que é possível acontecer comigo também.
Eu achei que eu nunca mais ia me apaixonar.
Mesmo.
Eu achei que eu ficaria chorando pra sempre a perda de alguém que nem era especial, que é mais sem graça que qualquer outro ser que eu conheci. Quando eu via luz em você, era porque eu tinha pouca experiência. Quando eu te achava lindo, é porque não olhava com atenção ao meu redor. Quando eu ficava brava, era porque você me ignorava e eu estava ao seu lado incondicionalmente. Se achei que você algum dia me amou, foi por inocência. Quando achava que você era importante, é porque eu não tinha dado conta da minha própria importância no meu mundo.
É isso, passou. Acabou. Foi um filme ruim. Um livro cheio de capítulos exagerados. Ele deu lugar a uma nova história cheia de cumplicidade e gargalhadas enquanto se admira o sol se pondo do ponto mais alto da cidade. Deu lugar a uma história que vale a pena ser lida. Deu lugar a uma pessoa que sabe muito bem como me fazer feliz. Que me tira o riso fácil e dá asas para a minha cobra.
Quando somos amadas de verdade, sabemos que todo o resto foi pura ingenuidade.


Você pode acompanhar meus textos clicando aqui.



samedi 27 juin 2015

É sobre os olhos dela.



A conheci em uma noite de verão. Dessas que a gente mal consegue dormir. Estava sentado em um botequim, tomando alguma coisa com um cheiro forte e um gosto horrível. Não lembro.

Não sou desses caras que costumam lembrar muito. Aliás, quem é? Os caras não lembram, você sabe bem, velho. Se lembram, é porque é importante. E eu lembro tanto dela...

Não lembro de quantos drinques bebi naquela noite. Não lembro da cor da minha camisa. Não lembro. Mas eu lembro dela.  E de como ela chegou. E de onde ela sentou. E de como ela me olhou, assim, sem querer.

É que ela me atravessou fundo. Naquela noite, e em todas as outras 175. Eu lembro, de cada uma.
Os olhos dela despertaram algo dentro de mim que eu não conhecia, cara. E eu desejo que, se você tiver sorte nessa tua vida, você possa enxergar neles o que eu enxerguei. E que eles te encantem assim. E te toquem assim. E te convidem e te convençam a ir aonde ela for, só com uma levantada de sobrancelha, dessas que ela sempre foi especialista em fazer. Você vai saber. Por favor, saiba. Ou devolve ela pra mim, cara.  Aqueles olhos dizem coisas demais e seria um desperdício que eles vivessem ao lado de alguém que não saiba apreciá-los.

Não digo que você precisa interpretá-los. Na verdade, eu também confesso que nunca soube. Mas eu sabia que tinha muita coisa lá, cara. Eu sei. E eu estaria disposto a dedicar todos os dias da minha vida na tentativa de desvendá-los, se ela deixasse. É que na vida de alguém assim, perdido feito eu, meio prepotente e egoísta, ela é luz.

Ela iluminou tudo que eu jamais imaginaria que tivesse solução. Até me fez cantar. E eu não tinha tomado nenhum drinque. Nenhum, cara. E nunca fui tão feliz. Quem precisa de álcool pra ficar alegre, não conhece ela. Não conhece aqueles olhos, capazes de embriagar mais do que qualquer uma dessas porcarias que eu tomo por aí e nem sei o nome. Hoje eu até tento memorizar, porque ando de garrafa em garrafa na esperança de encontrar alguma que me faça esquecê-la. Nenhuma faz, cara. Por isso, me escuta:  Não perde ela. Nenhum daqueles vinhos granfinos que tem no teu estoque vai te deixar mais tonto do que perdê-la. Aliás, se perdê-la, já és um tonto, mesmo sóbrio, como eu fui.

Eu a perdi, num dia desses. Entre o meu orgulho e o meu ego. Entre um drinque e outro. Entre a minha incapacidade de compreender o que os olhos dela diziam e ela esperava tanto que eu entendesse. Mas eu não entendia.

Hoje eu entendo. Por isso, segue o meu conselho, cara. Larga tudo o que tu estiver fazendo agora e corre abraçar ela. E olhar naqueles olhos com a convicção do que eu te digo: Ela é a melhor coisa que vai acontecer na tua vida. A mais confusa, confesso. Vai virar tudo de ponta cabeça. Esvaziar os cômodos. Tirar as coisas da gaveta. Porque ela é meio convicta demais e quer as coisas do jeito dela. Ela vai bagunçar um pouco teus pensamentos, tuas certezas e aguçar mais do que nunca as tuas dúvidas. Mas, se você dedicar-se a compreendê-la, ela vai arrumar a tua vida.  Porque ela é exclamação que se inclina só pra confundir. Ela é o mistério mais escancarado e lindo que tu vai ter a chance de descobrir. Mas dê o teu máximo, como eu dei, mesmo não sendo o suficiente.

Ela é luz e eu sou trevas, cara. Ela é o brilho do sol e eu sou o escuro da noite. Ela é vitamina de morango e eu sou um copo vazio em um botequim.

Ela precisou ir. O lugar dela não era comigo. Nunca foi. E eu vi que, mesmo tendo isso escrito na minha testa, ela insistiu até mais do que eu me achava digno. Ela tentou me salvar, cara, mas eu sou um caso perdido. Espero que você não seja também.

Eu nunca consegui interpretar aqueles olhos. Mas na saída daquele mesmo botequim, com um sorriso delicadamente formado pelo puxar do canto do lábio dela, ela me olhou. Não mais com alegria. Não mais com aquele labirinto negro tão profundo e indecifrável que me fez cantar em plena sobriedade. Ela me olhou com os olhos molhados, apáticos, sem entrelinha alguma, que, pela primeira vez, permitiram-se ser interpretados.

E com um gosto muito mais amargo do que a bebida que eu segurava naquele copo, com um piscar de cílios dela, eu engoli: Adeus.

Hoje, nada do que eu tomo é tão forte ou me tira tanto o rumo quanto a sua partida. Mas a chegada dela é doce.
 Esvazie todo o seu estoque e encha o teu copo com a sua presença. Se assim o fizer, a sua ressaca vai ser amor. A minha, é saudade.

É tudo sobre os olhos dela, ou, sobre mim...
Sem eles.





jeudi 11 juin 2015

Falar de amor é muito fácil

Dá pra falar de amor nos piores e nos melhores momentos. Dá pra falar de amor até quando se está no fundo do poço, soterrado por toneladas de merdas que aconteceram ao longo do tempo. Dá pra falar de amor sem nunca ter amado, porque as revistas, a tv, os filmes e os livros nos doutrinaram muito bem. Dá pra falar de amor mesmo sendo uma pessoa com o ego do tamanho do mundo, envaidecida por poucas coisas. Dá pra falar de amor amando e deixando de amar.
Só não dá pra fingir amor, isso não dá. Não dá pra fingir todos aqueles sintomas de paixão, de consideração e ansiedade - típicos de quem ama demais. O amor nada mais é que uma relação de troca, ou seja: se um não ama, dois não ficam juntos. O amor precisa estar ali de alguma forma nas nossas vidas, nem que seja o desejo incontrolável por um amor romântico na sua vida. Você passa muito tempo buscando o amor verdadeiro nos olhares por aí - e muitas vezes acaba se dando mal, porque o amor é quase uma loteria da vida.
Amar pode trazer muitas consequências para sua vida e eu espero que sejam sempre as melhores. Porque o amor está cada vez mais dissolvido no tempo, na modernidade e na distância e solidão que a vida conectada o tempo todo pode nos mostrar.
Amar não é só ter registros, ter momentos juntos. É muito mais, envolve gasto de energia e troca de sentimentos. Troca de momentos. Amar é ceder. Amar não é se anular pelo outro - diferente do que a mídia muitas vezes nos mostra. Não é o amor que fez aquele cara matar a ex. Não é o amor que fez aquela moça acabar com a própria vida em função de um "amor" que não deu certo. O amor faz muitas coisas, mas se tem uma que ele não faz, é acabar com a vida de um ou de outro.
Dá pra falar de amor quando você está no vigésimo quinto andar pensando seriamente em pular. Provavelmente será o grande assunto da vez: você irá pensar em quem ama, em quem não ama e procurar amor até nos cantinhos mais obscuros da sua mente confusa - você vai procurar, vai por mim.
Não dá pra falar de amor quando o assunto é ciúme nem quando o assunto é desistência. Ninguém desiste de um amor genuíno, a gente sempre bate na mesma tecla e em todas as outras disponíveis pra ver se de alguma delas sai algum conforto para o nosso coração angustiado. Dá pra falar lindamente de amor quando você está em pedaços.
Dá até pra compor uma canção linda sobre amor quando não se ama. Dá para fazer um filme sobre o amor sem nunca ter sentido esse sentimento arrebatador. Dá pra falar de amor sangrando no chão, em meio aos seus pedaços que foram pisoteados por alguém que você amou profundamente. Só não dá pra falar de amor fingindo que foi pregado o ódio a quem é diferente, não vale falar de amor quando for diminuir alguém ou um grupo. E não dá pra falar de amor se você não faz a sua parte para um mundo melhor. Quer dizer, você até pode falar de amor sendo a pessoa mais escrota da face da terra, mas você podia gastar seu tempo procurando amor de verdade por aí.
Você pode acompanhar meus textos clicando aqui.



Hipoteca



Voltei a minha antiga casa, alguns meses atrás. Tinha lembranças tuas em cada metro quadrado.

Naquela varanda onde me despedi de ti tantas vezes, te abraçando e pedindo pra ficar sempre um pouco mais. Naquela cozinha onde eu cozinhava pra você mesmo não sabendo cozinhar. E te xingava sempre que você vinha se meter nas minhas panelas pra mostrar que, de fato, você sabia muito mais do que eu.

Naquele sofá, tão pequeno, onde a gente lutava pra coexistir. Violando as leis de Newton e provando que dois corpos podem sim ocupar o mesmo espaço. E ocupávamos. Você com dor no braço e eu sempre caindo no chão, mas a gente sobrevivia por uns 5 ou 6 minutos. Acho que já é o suficiente. 

Olhei para as estantes onde costumava ter porta-retratos de nós dois, sorrindo. Mas nenhum havia sobrevivido. As fotos rasgadas já haviam sido jogadas fora há tempos e os porta-retratos - coitados - lançados sobre a parede em alguma das minhas tantas crises de quem não sabe como remediar a dor que soca a boca do estômago.  

Eu precisava desocupar a casa, cara. Um novo morador a alugara e cuidaria dela pra mim. Mas para que ele a assumisse, eu precisava me livrar daquelas coisas. E de você. De tudo que restou lá e eu não tive coragem de mexer. De toda aquela mobília que só servia pra ocupar espaço e doer. Como aquele quadro meu que você pintou e pendurou no corredor pra eu sempre me lembrar do quanto era bonita. Era o que você dizia. 

Comecei a tirar tudo de dentro dos guarda-roupas, armários e gavetas. Para encaixotar as coisas, inevitavelmente, precisamos trazê-las para fora de onde estão. E isso, talvez doa um pouco. Revi muitas coisas que eu não queria ter visto, mas, pelo menos, seria a última vez. E afinal, aquilo não podia ser tão difícil, ou podia? 

Sim, podia. E foi. Porque o problema é que eu te amei, cara.  Amei mesmo quando disse que não amava. Mesmo quando desliguei o telefone na sua cara umas 42 vezes. Mesmo quando eu disse adeus porque ficar doía demais. Mesmo quando você seguiu a sua vida fingindo não lembrar da minha existência. Mesmo quando eu tive que seguir a minha ignorando a sua. 

Mesmo quando eu quebrei cada porta-retrato daquela casa. Mesmo quando tirei as suas chaves e disse pra nunca mais voltar. Eu amei, de verdade. Mesmo te mandando embora. 

Encaixotei você com a mesma dor que encaixotei cada uma das suas, das nossas, lembranças. Porque eu precisava desocupar a casa. Era só mobília velha que servia pra doer e roubar espaço. Tinha gente nova querendo entrar, comprar, morar. Mas ninguém compra casa alugada, cara. Nem a felicidade. 

A felicidade batia na minha porta mas não conseguia entrar porque não tinha espaço. E foi difícil, cara. Foi difícil guardar você numa caixa como se fosse nada e enfiar em um caminhão. Foi difícil doar os seus restos que invadiam os meus cômodos que antes eram tão felizes. Mas eu fiz. 

Eu fiz, porque tinha que fazer. Eu fiz e faria de novo. Sua presença estava virando mofo que espantava todo mundo que chegava. E a minha casa era bonita demais pra ficar abandonada. Desculpa, cara. Mas o valor pra morar em mim é alto demais e você não quis pagar o preço. Você não foi fiel ao nosso contrato. Você foi inquilino que ficou tempo demais sem cumprir o acordo. 

Eu te hipotequei pra pagar a minha dívida de ser feliz de novo. 
E hoje, eu sou.  



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