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vendredi 31 juillet 2015

Sobre o fim do que não acaba nunca


Nunca mais escrevi sobre você. Pra falar a verdade, já faz algum tempo que venho tentando não escrever sobre coisa alguma. É porque eu sei que não adianta fugir, qualquer trecho que eu tente escrever sem que estejas presente nas entrelinhas, é em vão. Qualquer frase que fale de amor, ou de saudade, ou de qualquer coisa que eu contenha em mim, por certo acabará entrando pra coleção cuja você é o destinatário, ou protagonista. Você sempre foi meu personagem favorito. Você sempre foi minha maior extravagância.

Nunca fui boa em começar textos, você sabe disso. Eu sempre comecei pelo final. Mas se você estiver lendo isso agora, quero te dizer que hoje, eu fiz diferente. Não quis saber como acabaria, não quis saber se faria sentido, porque afinal, se tem uma coisa que aprendi nesses últimos  meses - desde que você saiu por aquela porta e nunca mais voltou - é que nem todo fim faz sentido. Apesar de eu sentir tanto.

É que tem fim que parece injusto. Como aqueles filmes lindos que são uma droga no final, porque não tem um fim. Quer dizer, tem, mas, um fim mal resolvido, um fim que não cabia, um fim deslocado, como um ponto final no meio da frase. Nem todo ponto final é justo. Mas, também, nem todo ponto final significa, de fato, um fim. Existe sempre uma outra linha, outra página. Talvez, um outro livro.

As palavras podem terminar em uma frase, mas elas nunca acabam. E nessa existência não aplicada cabe tanta coisa. Terminar um amor é como um poema que termina na metade, feito aquele livro "Uma aflição imperial". Feito os olhos de ressaca de Capitu, que terminaram com o fim de Dom Casmurro, sem nunca revelarem a verdade. É muito difícil terminar uma coisa que não acaba. Cê tá me entendendo? Espero que sim.

É que hoje eu me peguei pensando, entre todas essas lições de que nem tudo é como a gente quer, que também, nem tudo deixa de existir porque a gente deixa de acreditar. O fato de alguém ser ateu não vai mudar a existência de Deus. O fato de eu rejeitar a teoria copernicana, não vai fazer com que a Terra pare de girar. Uma rosa sempre vai ser uma rosa, independente de como a chamarmos. Da mesma forma, o amor não acaba só porque a gente acabou.

O fim do amor é triste, porque existe velório e luto, mas não existe morte. O que existe, é o desespero de tentar enterrar vivo um sentimento, que nunca para de rebater.
Hoje eu acordei e me lembrei de você. Hoje eu decidi escrever e achei que conseguiria colocar um ponto final...

Não consegui






lundi 6 juillet 2015

Sem título, com demasiado sentimento.




Tentei por muito tempo escrever esse texto. Amassei folhas e exclui pensamentos. Enchi os blocos de rascunho do meu celular. Não consigo. Alguns sentimentos simplesmente não podem ser traduzidos. Eu que sempre os expressei assim, agora aprendi: Tem coisa que dói demais pra conter em sílabas. Tem dor que é coisa demais pra caber no papel. Não cabe, não caibo, não cabia. Nunca coube em mim, eu sempre transbordei. Quis me dividir contigo. "Vamos, leve um pouco com você, sou pequena demais pra guardar tudo isso". Mas você também não tinha espaço pra mim. Pra onde eu transbordo agora? Pra quem? O mundo é pequeno demais pra minha grandeza.

Agora você foi embora. Sua buzina não soa mais na frente da minha casa cinco vezes seguidas, despertando todos os vizinhos. Eu já não durmo no seu peito e nem acordo com você me dizendo pra levantar logo pra não me atrasar pra escola. Teus beijos não são mais meus. Há semanas não sinto teu abraço. Teu cheiro, impregnado no travesseiro, no moletom velho esquecido no meu armário, é o que me faz te sentir mais perto. 

A rosa que você me deu, continua intacta na minha prateleira. Não tive a força de vontade de tirar teus rastros espalhados pela casa. Ainda tem o nosso retrato na estante da sala-de-estar. Nem você tirou da tua. Estive na tua casa uma tarde dessas, você não estava. Entrei no teu quarto e pude me despedir de cada canto. Abracei com desespero aquela tua camisa rosa, jogada sobre a cama, e chorei feito criança. Que tola. Dei adeus pra os teus violões pendurados na parede. Aqueles que costumavam carregar fotos minhas entre as cordas, agora tu tocas outro ritmo. A luminária que você me deu e me tomou por não ter pendurado, agora se esconde no quarto de hóspedes que ninguém usa, por debaixo de colchões e velharias. É o que somos agora. Luz ofuscada que já brilhou demais, mas agora se esconde em um quarto de hóspedes esquecido, apagada. 

Conformismo medíocre. Não me satisfaço em aceitar que nos apagamos. Você em mim é caneta permanente, é luz acesa, é ontem e hoje. Você em mim é amor. Hipocrisia seria dizer o contrário. O tempo de "você e eu" acabou, mas você em mim não, você em mim é tempo infinito. E ponto. 

Você está feliz agora. O vejo sempre sorrindo, e contando pros outros as piadas que eu já sei de cor. Você ainda me olha bonito, e fala bonito, e anda bonito. De longe, numa performance admirável que eu faço questão de assistir sempre, aqui do meu banco. Você é bom matemático e eu sempre fui boa na língua. Te expliquei umas três vezes as aplicações dos porquês. Junto, separado, com acento, sem. Você entendeu. Hoje eu não entendo. Não entendo os porquês. Não sei te explicar. Amor nem sempre é o suficiente, e esse é o grande mistério. Talvez um dia a gente descubra.

Enquanto isso eu fico aqui. Te assisto da primeira fileira, no canto, já sei seu papel de cor. Infelizmente, na peça que você escolheu atuar, eu não sou protagonista. As cortinas se fecharam, já não faço mais parte do teu show. Devolvo meu ingresso e saio de cena. Te amo quietinha, de longe, nos bastidores. Ninguém aplaude, a história não teve final feliz, e só. Não escrevo ficção, narro fatos. E contra fatos não há argumentos. As palavras já perderam o sentido... 

Quando nada mais inspira, a gente escreve sobre o quê?





jeudi 2 juillet 2015

Quem parte deixa algo partido.


Você reparou na porta aberta e partiu. Observei pela janela você caminhar para longe, dar uma breve olhada para trás e seguir em frente. Suas roupas não estavam mais nas gavetas, a toalha molhada não estava sobre a cama, o quarto não exalava o cheiro do seu perfume, os seus sapatos não estavam jogados pela sala de jantar ou embaixo do sofá. A casa estava em silêncio. Quem parte deixa algo partido.
Eu quis xingar você por não ter insistido, por ter desistido fácil. Entendo que assim como há a hora de lutar, há também a hora de desistir, mas o nosso fim não estava agendado, não no meu calendário.
Você fez o seu caminho, deixou para trás o que tínhamos de mais bonito. Queixava-se por eu ser complicada, mas não estava disposto a tentar traduzir o que meu coração dizia. O amor é cuidado. Dedicação. Você não entendia. Não tentou entender. A covardia não estava sobre os meus ombros, mas sobre os seus.
Sua ausência atormenta minhas noites como se não existisse a possibilidade de ser preenchida. Ontem você era minha esperança mais bonita, hoje não passa de lembranças.


Autora Convidada: Laureane Antunes.

Eu aprendi a ser amada de verdade

Você entrou e segurou o meu coração na mão. Eu sangrava e implorava por um pouco de atenção enquanto você o apertava até que ele cair no chão, em pedaços. Eu pensei que a nossa história era de amor enquanto participávamos de uma tragédia grega.
Eu aprendi. Aprendi a não chamar tanto a atenção. A não cobrar de quem não quer se comprometer. A me virar. A ser auto suficiente. A não precisar do seu aval para qualquer situação vivida por mim.
Mudei meu coração de endereço e só levei o que não me pesaria as costas. Achei novos amores que não deram muito certo e depois achei um que era a minha cara, impossível ser mais perfeito. Achei até a minha auto estima que ficou pairando no ar depois de ser resgatada do fundo do poço. Aprendi a ouvir as músicas com mais atenção, percebi que eu era capaz de muito mais do que você determinou que eu seria. Eu saí do seu caminho e espero que você consiga sair rapidamente do meu. Eu sei que a estrada é escura quando estamos sozinhos, mas você é capaz. Se eu fui, qualquer um é.
O amor que eu sempre quis já morava dentro de mim e eu estava louca pra poder dar vazão a esse sentimento lindo que você recusou tantas e repetidas vezes. Mesmo com a praga que você rogou, eu tô aqui amando e sendo amada. E mesmo se não estivesse, eu saberia que em algum momento alguém ia perceber que o meu coração é do tamanho do mundo e que se eu sofri muito é porque eu era capaz de dar muito mais que o seu ego era capaz de receber.
Troquei a roupa, troquei a nossa foto emoldurada por um retrato que fizeram de mim. Troquei até a foto da minha identidade porque eu não consigo reconhecer aquela moça da foto antiga da época que ainda estava presa a um amor unilateral - que você, curiosamente, não abria mão nem a pau.
Eu chorei por meses. Chorei tanto que achei que eu ia acabar secando as lágrimas algum dia. Chorei alto e você até debochou do que eu sentia enquanto você dizia que não. Chega um momento que a gente cansa de chorar e parte pra briga. A minha briga foi comigo mesma, pra deixar pra trás uma história com um roteiro pobre, cheio dos clichês e cheia dos erros de continuidade. Eu deixei de dirigir a minha vida por medo da sua invadir a minha história novamente, o que não vai acontecer nunca mais. Deixei no meio do caminho até o livro que você me deu com dedicatórias engraçadinhas sobre a vida, sobre uma parte de mim que não existe há muito tempo. Eu te deixei porque descobri que o amor é muito mais simples que os seus joguinhos de manipulação emocional. Descobri que o amor é rico, que o amor é bom e que é possível acontecer comigo também.
Eu achei que eu nunca mais ia me apaixonar.
Mesmo.
Eu achei que eu ficaria chorando pra sempre a perda de alguém que nem era especial, que é mais sem graça que qualquer outro ser que eu conheci. Quando eu via luz em você, era porque eu tinha pouca experiência. Quando eu te achava lindo, é porque não olhava com atenção ao meu redor. Quando eu ficava brava, era porque você me ignorava e eu estava ao seu lado incondicionalmente. Se achei que você algum dia me amou, foi por inocência. Quando achava que você era importante, é porque eu não tinha dado conta da minha própria importância no meu mundo.
É isso, passou. Acabou. Foi um filme ruim. Um livro cheio de capítulos exagerados. Ele deu lugar a uma nova história cheia de cumplicidade e gargalhadas enquanto se admira o sol se pondo do ponto mais alto da cidade. Deu lugar a uma história que vale a pena ser lida. Deu lugar a uma pessoa que sabe muito bem como me fazer feliz. Que me tira o riso fácil e dá asas para a minha cobra.
Quando somos amadas de verdade, sabemos que todo o resto foi pura ingenuidade.


Você pode acompanhar meus textos clicando aqui.



samedi 27 juin 2015

É sobre os olhos dela.



A conheci em uma noite de verão. Dessas que a gente mal consegue dormir. Estava sentado em um botequim, tomando alguma coisa com um cheiro forte e um gosto horrível. Não lembro.

Não sou desses caras que costumam lembrar muito. Aliás, quem é? Os caras não lembram, você sabe bem, velho. Se lembram, é porque é importante. E eu lembro tanto dela...

Não lembro de quantos drinques bebi naquela noite. Não lembro da cor da minha camisa. Não lembro. Mas eu lembro dela.  E de como ela chegou. E de onde ela sentou. E de como ela me olhou, assim, sem querer.

É que ela me atravessou fundo. Naquela noite, e em todas as outras 175. Eu lembro, de cada uma.
Os olhos dela despertaram algo dentro de mim que eu não conhecia, cara. E eu desejo que, se você tiver sorte nessa tua vida, você possa enxergar neles o que eu enxerguei. E que eles te encantem assim. E te toquem assim. E te convidem e te convençam a ir aonde ela for, só com uma levantada de sobrancelha, dessas que ela sempre foi especialista em fazer. Você vai saber. Por favor, saiba. Ou devolve ela pra mim, cara.  Aqueles olhos dizem coisas demais e seria um desperdício que eles vivessem ao lado de alguém que não saiba apreciá-los.

Não digo que você precisa interpretá-los. Na verdade, eu também confesso que nunca soube. Mas eu sabia que tinha muita coisa lá, cara. Eu sei. E eu estaria disposto a dedicar todos os dias da minha vida na tentativa de desvendá-los, se ela deixasse. É que na vida de alguém assim, perdido feito eu, meio prepotente e egoísta, ela é luz.

Ela iluminou tudo que eu jamais imaginaria que tivesse solução. Até me fez cantar. E eu não tinha tomado nenhum drinque. Nenhum, cara. E nunca fui tão feliz. Quem precisa de álcool pra ficar alegre, não conhece ela. Não conhece aqueles olhos, capazes de embriagar mais do que qualquer uma dessas porcarias que eu tomo por aí e nem sei o nome. Hoje eu até tento memorizar, porque ando de garrafa em garrafa na esperança de encontrar alguma que me faça esquecê-la. Nenhuma faz, cara. Por isso, me escuta:  Não perde ela. Nenhum daqueles vinhos granfinos que tem no teu estoque vai te deixar mais tonto do que perdê-la. Aliás, se perdê-la, já és um tonto, mesmo sóbrio, como eu fui.

Eu a perdi, num dia desses. Entre o meu orgulho e o meu ego. Entre um drinque e outro. Entre a minha incapacidade de compreender o que os olhos dela diziam e ela esperava tanto que eu entendesse. Mas eu não entendia.

Hoje eu entendo. Por isso, segue o meu conselho, cara. Larga tudo o que tu estiver fazendo agora e corre abraçar ela. E olhar naqueles olhos com a convicção do que eu te digo: Ela é a melhor coisa que vai acontecer na tua vida. A mais confusa, confesso. Vai virar tudo de ponta cabeça. Esvaziar os cômodos. Tirar as coisas da gaveta. Porque ela é meio convicta demais e quer as coisas do jeito dela. Ela vai bagunçar um pouco teus pensamentos, tuas certezas e aguçar mais do que nunca as tuas dúvidas. Mas, se você dedicar-se a compreendê-la, ela vai arrumar a tua vida.  Porque ela é exclamação que se inclina só pra confundir. Ela é o mistério mais escancarado e lindo que tu vai ter a chance de descobrir. Mas dê o teu máximo, como eu dei, mesmo não sendo o suficiente.

Ela é luz e eu sou trevas, cara. Ela é o brilho do sol e eu sou o escuro da noite. Ela é vitamina de morango e eu sou um copo vazio em um botequim.

Ela precisou ir. O lugar dela não era comigo. Nunca foi. E eu vi que, mesmo tendo isso escrito na minha testa, ela insistiu até mais do que eu me achava digno. Ela tentou me salvar, cara, mas eu sou um caso perdido. Espero que você não seja também.

Eu nunca consegui interpretar aqueles olhos. Mas na saída daquele mesmo botequim, com um sorriso delicadamente formado pelo puxar do canto do lábio dela, ela me olhou. Não mais com alegria. Não mais com aquele labirinto negro tão profundo e indecifrável que me fez cantar em plena sobriedade. Ela me olhou com os olhos molhados, apáticos, sem entrelinha alguma, que, pela primeira vez, permitiram-se ser interpretados.

E com um gosto muito mais amargo do que a bebida que eu segurava naquele copo, com um piscar de cílios dela, eu engoli: Adeus.

Hoje, nada do que eu tomo é tão forte ou me tira tanto o rumo quanto a sua partida. Mas a chegada dela é doce.
 Esvazie todo o seu estoque e encha o teu copo com a sua presença. Se assim o fizer, a sua ressaca vai ser amor. A minha, é saudade.

É tudo sobre os olhos dela, ou, sobre mim...
Sem eles.





mardi 16 juin 2015

Como vi meu ex se apaixonar por outra pelo Facebook

Era uma tortura, mas fiquei viciada em saber tudo o que rolava com ele pelas redes sociais.


Nós terminamos no estacionamento de uma pizzaria. Ele queria casar. Queria filhos, um emprego decente e um quintal grande para ter cachorros. Eu queria Nova York. E Londres. Talvez a Tailândia por um ou dois anos. Queria escrever e morar num apartamento horrível e viver uma paixão desajustada. Eu tinha acabado de fazer 21 anos e ainda não queria algo tão fácil.

Pedimos uma pizza para viagem, sentamos no carro dele e comemos em silêncio. Preferimos isso a pagar o serviço e ouvir a rádio horrível dos anos 90 que tocava dentro do restaurante, ou talvez fosse simplesmente melhor comer em silêncio.
“Tem alguma coisa errada”, eu falei.
“Erraram o pedido?”, ele perguntou preocupado, me lembrando porque eu amava ele.
“Não. Não com a pizza. Com a gente”, eu falei.
Sobrou um pouco de molho no queixo dele. Limpei com o dedo, mesmo sem saber se deveria. Chorando, nos prometemos várias coisas impossíveis, com a pizza não-comida gelando nos nossos pés. Quem sabe em alguns anos, falamos. E eu acreditei nisso por mais tempo do que deveria.
Foi minha justificativa para, três meses depois, espiar o perfil de Facebook dele durante uma madrugada. Eu me prometi que só queria saber se eles estava bem. Eu me convenci que só queria saber se ele tinha conseguido um emprego. Sabe, chechar se está tudo bem com os pais deles. Sempre havia um motivo para visitar o perfil dele.
A primeira foto deles juntos foi tirada em uma festa. Acho que era uma festa pelo copo de plástico na mão dela e o sorrisinho meio bêbado dele – aquele do qual eu tanto tirava sarro. Ele segurava ela pela cintura e enquanto eu olhava para a tela do computador, tentei não me lembrar de como eu me sentia quando ele colocava a mão na minha cintura. Talvez eles sejam só amigos. Será que eles já se conheciam enquanto namorávamos? Fiquei pensando se já tinham dormido juntos.
Eu me lembrei que não tinha o direito de me importar com isso. Mas eu me importei. Eu fechei o laptop com tudo. Já tinha me torturado o suficiente por uma noite. Mas assim que eu dormi, sonhei com ele.
Era inverno. A neve estava suja no estacionamento da loja de conveniência onde compramos papel higiênico. Estávamos encostados no carro e eu sentia que estava congelando. Ele respirou perto de mim, aquela nuvem de ar quente me aquecendo. Como em qualquer sonho desse tipo, a história não fazia sentido algum. Por que estávamos parados e não andando? Por que estávamos dirigindo o carro da minha mãe em vez do dele? Por que ele estava sem casaco? Por que ainda estávamos juntos?
Eu tirei minhas luvas e coloquei as mãos por baixo da camiseta dele, procurando seu peito. Ele sentiu arrepio e sorriu para mim.
“Eu só estou aqui para aquecer suas mãos, né?”, ele disse.
“Talvez”, eu dei uma risadinha.
Acordei com frio, procurando por ele na minha cama.
O momento depois de acordar sempre foi o pior de todos. Naquele momento, eu sentia que o sonho era real, que talvez a gente nunca tivesse terminado. Naquele momento em que eu voltava a dormir, desejando mais do que tudo colocar minhas mãos no peito dele. Aquele momento em que eu lembrava quão fácil era amar e ser amada e que parecia impossível que aquilo não fosse mais o caso.
Eu peguei meu celular no criado-mudo e dei uma olhada no Twitter. Eu precisava estar com ele, do jeito que fosse. Lendo os posts dele, conseguia ouvir a sua voz. Eu imaginava ele dando risada das próprias piadas antes de postar e sorria pensando nisso. Eu ouvia tão bem a voz dele que por um minuto nem me senti tão sozinha.
Seis meses depois de terminar, outra foto surgiu: ele e a garota do copo de plástico num jogo de baseball. Senti um nó no estômago quando entendi que ela se tornaria alguém presente na vida dele. Olhei aquela foto, cada um segurava uma bebida. Me perguntei se ela gostava de esportes ou só estava lá pela cerveja e pelos cachorros quentes, como eu. Ou se ela adorava olhar a calça justa dos jogadores, ou falar do pessoal bêbado em volta dela. Ou se eles estavam se divertindo.
Vendo eles juntos, com aqueles sorrisos sinceros e copos cheios, ainda assim não entendi que ele tinha superado. Talvez em alguns anos – eu sempre lembrava daquela promessa com facilidade. Eu não queria ele agora, mas isso não significava que eu não poderia ter ele nunca mais.
Eu não conseguia aceitar que ele podia se apaixonar por outra enquanto eu ainda o amava. Naquela época, eu não entendia que o amor podia ser algo tão platônico. Eu não conseguia imaginar que ele falava para ela coisas que tinha falado para mim, ou que olhava para ela do mesmo jeito que me olhou um dia.
Estava tão iludida que sentia dó dela. Aquela coitada que tinha um namorado que amava a ex. Engraçado como é fácil acreditar no inacreditável para não se magoar.
Eu pensava nele deitado na cama, olhando para o teto, desejando que aquela garota ao lado dele fosse eu. Era mais fácil imaginar que ele não conseguia dormir, me procurando pela cama, do que acreditar na real: que ele não estava pensando em mim.
A internet me contou várias coisas sobre ela. Que ela era linda e inteligente. Que ela era sociável e tinha um sorriso doce. Eu queria odiá-la, mas não conseguia. Ela tirava fotos com crianças e sorria de forma muito sincera. Ela ria de um jeito que me parecia autêntico. Ela parecia uma daquelas mulheres que não demora para se arrumar.
Olhava para a foto do perfil dela e depois para a do meu, tentando sair de dentro de mim e ser um juiz justo comparando nós duas. Olhava para nossos perfis e via tudo que a gente tinha em comum, e tudo que a gente não tinha. Meu rosto é mais angular que o dela, meu cabelo é menos loiros. Meu sorriso não é tão espontâneo, a não ser nas fotos em que eu estava com ele. Ela fazia mais trabalho voluntário que eu, mas eu parecia sair mais. Ela parecia vir de uma família com dinheiro, e eu parecia viver de roupas de doação e uma lista de supermercado enxuta. A gente tinha nossas diferenças, mas também tinha similaridades óbvias: amávamos nossas famílias, nossos amigos e o mesmo cara.
Foram meses assistindo eles se marcarem em fotos até a mudança do status de relacionamento. Eu sofria vendo eles trocando piadas internas no Twitter e especulava do que eles estavam falando. Percebi quando ela ficou amiga das irmãs dele e tirou fotos com a sogra. Fui a espectadora da viagem de férias dele, enquanto ele usava um relógio que foi presente meu. Vi eles dirigindo juntos no carro em que nos beijamos - o mesmo carro em que terminamos.
Eu vi o relacionamento deles chegar a fases que o nosso tinha chegado, e a fases que não tinha.
Eu me perguntava se eles brigavam. Me perguntava se o que ele fazia que tanto me irritava também incomodava ela. Me perguntava se ela também queria o quintal grande e o emprego estável.
Sim, eu poderia parar de acompanhar eles a qualquer momento, mas era um vício. Eu queria saber o que ia acontecer. Se eles iam dar certo. Ou, talvez, se não iam.
Apesar de me torturar tanto, nunca falei com ele.
Eu ainda queria Nova York. E Londres. E talvez a Tailândia por um ou dois anos. Nada tinha mudado. Mas eu gostava de ver as fotos daquele dentucinho. Eu gostava das caras bobas que ele fazia quando não estava pronto para a foto. Ele me lembrava de como era me apaixonar, e eu gostava disso.
Nós estávamos em caminhos opostos, mas eu ainda sentia uma atração inexplicável por ele. Era tão bom ter ele ali, tão acessível, mesmo se ele não estivesse de fato.
Eu não me achava uma stalker, mas talvez eu fosse – espiando a vida feliz de alguém por uma janela virtual. Acho que pensava que, só por vê-lo na tela do computador, de alguma forma ele ainda era meu e talvez eu não estivesse sozinha e talvez alguém me amasse. Talvez ele também estivesse espiando minha vida.
Com o passar do tempo, entrei menos no perfil dele. E quando eu entrava, não doía mais tanto. Ao contrário, passou a ser quase um tédio, uma dor familiar que deixa cicatriz, mas você sente mais a dor pela lembrança do que por qualquer outra coisa.
Comecei a conseguir passar uma hora sem pensar nele. Depois foram algumas horas, um dia, uma semana, um mês.
Hoje, quando entro no perfil dele, quase não sinto mais nada. Tenho orgulho quando algo de bom acontece na carreira dele, e fico triste se alguém morre. Fico feliz por ele estar apaixonado. Fico feliz que a garota do copo de plástico encontrou um homem tão bom.
Talvez hoje ele seja diferente. Não dê aquele ronquinho quando ri ou não faça sanduíche de pizza antes de comer. Talvez eu não conheça mais ele. Ainda assim, entrar no perfil dele me lembra de como fui capaz de amar e que sou digna de ser amada. Eu me lembro de que quando você realmente se importa com a outra pessoa, você nunca realmente a esquece.

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