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samedi 27 juin 2015

É sobre os olhos dela.



A conheci em uma noite de verão. Dessas que a gente mal consegue dormir. Estava sentado em um botequim, tomando alguma coisa com um cheiro forte e um gosto horrível. Não lembro.

Não sou desses caras que costumam lembrar muito. Aliás, quem é? Os caras não lembram, você sabe bem, velho. Se lembram, é porque é importante. E eu lembro tanto dela...

Não lembro de quantos drinques bebi naquela noite. Não lembro da cor da minha camisa. Não lembro. Mas eu lembro dela.  E de como ela chegou. E de onde ela sentou. E de como ela me olhou, assim, sem querer.

É que ela me atravessou fundo. Naquela noite, e em todas as outras 175. Eu lembro, de cada uma.
Os olhos dela despertaram algo dentro de mim que eu não conhecia, cara. E eu desejo que, se você tiver sorte nessa tua vida, você possa enxergar neles o que eu enxerguei. E que eles te encantem assim. E te toquem assim. E te convidem e te convençam a ir aonde ela for, só com uma levantada de sobrancelha, dessas que ela sempre foi especialista em fazer. Você vai saber. Por favor, saiba. Ou devolve ela pra mim, cara.  Aqueles olhos dizem coisas demais e seria um desperdício que eles vivessem ao lado de alguém que não saiba apreciá-los.

Não digo que você precisa interpretá-los. Na verdade, eu também confesso que nunca soube. Mas eu sabia que tinha muita coisa lá, cara. Eu sei. E eu estaria disposto a dedicar todos os dias da minha vida na tentativa de desvendá-los, se ela deixasse. É que na vida de alguém assim, perdido feito eu, meio prepotente e egoísta, ela é luz.

Ela iluminou tudo que eu jamais imaginaria que tivesse solução. Até me fez cantar. E eu não tinha tomado nenhum drinque. Nenhum, cara. E nunca fui tão feliz. Quem precisa de álcool pra ficar alegre, não conhece ela. Não conhece aqueles olhos, capazes de embriagar mais do que qualquer uma dessas porcarias que eu tomo por aí e nem sei o nome. Hoje eu até tento memorizar, porque ando de garrafa em garrafa na esperança de encontrar alguma que me faça esquecê-la. Nenhuma faz, cara. Por isso, me escuta:  Não perde ela. Nenhum daqueles vinhos granfinos que tem no teu estoque vai te deixar mais tonto do que perdê-la. Aliás, se perdê-la, já és um tonto, mesmo sóbrio, como eu fui.

Eu a perdi, num dia desses. Entre o meu orgulho e o meu ego. Entre um drinque e outro. Entre a minha incapacidade de compreender o que os olhos dela diziam e ela esperava tanto que eu entendesse. Mas eu não entendia.

Hoje eu entendo. Por isso, segue o meu conselho, cara. Larga tudo o que tu estiver fazendo agora e corre abraçar ela. E olhar naqueles olhos com a convicção do que eu te digo: Ela é a melhor coisa que vai acontecer na tua vida. A mais confusa, confesso. Vai virar tudo de ponta cabeça. Esvaziar os cômodos. Tirar as coisas da gaveta. Porque ela é meio convicta demais e quer as coisas do jeito dela. Ela vai bagunçar um pouco teus pensamentos, tuas certezas e aguçar mais do que nunca as tuas dúvidas. Mas, se você dedicar-se a compreendê-la, ela vai arrumar a tua vida.  Porque ela é exclamação que se inclina só pra confundir. Ela é o mistério mais escancarado e lindo que tu vai ter a chance de descobrir. Mas dê o teu máximo, como eu dei, mesmo não sendo o suficiente.

Ela é luz e eu sou trevas, cara. Ela é o brilho do sol e eu sou o escuro da noite. Ela é vitamina de morango e eu sou um copo vazio em um botequim.

Ela precisou ir. O lugar dela não era comigo. Nunca foi. E eu vi que, mesmo tendo isso escrito na minha testa, ela insistiu até mais do que eu me achava digno. Ela tentou me salvar, cara, mas eu sou um caso perdido. Espero que você não seja também.

Eu nunca consegui interpretar aqueles olhos. Mas na saída daquele mesmo botequim, com um sorriso delicadamente formado pelo puxar do canto do lábio dela, ela me olhou. Não mais com alegria. Não mais com aquele labirinto negro tão profundo e indecifrável que me fez cantar em plena sobriedade. Ela me olhou com os olhos molhados, apáticos, sem entrelinha alguma, que, pela primeira vez, permitiram-se ser interpretados.

E com um gosto muito mais amargo do que a bebida que eu segurava naquele copo, com um piscar de cílios dela, eu engoli: Adeus.

Hoje, nada do que eu tomo é tão forte ou me tira tanto o rumo quanto a sua partida. Mas a chegada dela é doce.
 Esvazie todo o seu estoque e encha o teu copo com a sua presença. Se assim o fizer, a sua ressaca vai ser amor. A minha, é saudade.

É tudo sobre os olhos dela, ou, sobre mim...
Sem eles.





vendredi 26 juin 2015

Carta de despedida ao meu amor.


                   Meu menino,

       Há tempos não venho cá dedicar-te palavras escritas, peço-te desculpas, sei que minhas cartas o fazia sorrir. Mas não quero que pense que só porque deixei de passar tudo que sinto pro papel, o esqueci, não esqueci. Aliás, sussurrei milhares de cartas pra ti, ao vento que de fato ouviste passar.
       Vasculhando minhas várias caixas e livros, encontrei um bocado de coisas que fizeram-me lembrar de quando o conheci, de como éramos felizes, de como o nosso amor era lindo. Quis lembrar-te de tudo hoje neste escrito…
       Nós dois, tão jovens éramos quando nos conhecemos. Lembro-me como se fosse ontem o dia em que passava por aquela floricultura, com pressa, livro nas mãos e chapéu, o mesmo havia voado e você o segurou rapidamente, foi quando encontrei teus lindos olhos, Céus, naquele mesmo instante havia me apaixonado, jamais vi moço tão belo como tu. Ah, deste-me aquela margarida branca, minha favorita até hoje.
      E todas as fases que tivemos, recordo que íamos sempre pra debaixo daquela árvore naquela praça maravilhosa, contávamos juntos, líamos, brigávamos, dormíamos, você ria das minhas meias coloridas, sempre cantava para mim: “Ó querida Clementine”. Realmente é inesquecível tudo isso, meu menino.
      Encontrei suas cartas, quão lindas são todas cheias de traços infantis. Abateu-me logo uma nostalgia. Eu contava os dias para receber cartas tuas. Ler todas aquelas frases que me escrevia, arrancava-me lágrimas, sorrisos, saudades… Mas dentre todos os teus versinhos, era a frase de saudade a que eu mais relia.
      Mais um ano vai-se agora e tu, menino, continuas em mim, tão em mim. Peço que tire os olhos do céu e pare de achar-me em estrelinhas. Sei que é o cadinho difícil, cansativo para ambos toda essa distância, todo esse tempo sem nos vermos, sei que dói.
      Peço-te desculpas, me ausentei por demais, como nuvem, me desfiz, desfiz de nós, de tudo que me lembra de ti. Mas ainda sim, mantive a parte mais importante ali, rondar-te em sonhos, continuarei. Ausentamos-nos um do outro. Pra que? Precisávamos crescer, amadurecer… Ora! Depois de tanto tempo notei, quanta bobagem! Volte já para teus brinquedos, tuas coisas que fazia em sua infância. De nada adiantou nos afastarmos, creio que dentro de cada um de nós ainda existe aqueles dois jovens que viviam sentados se beijando naquela mesma praça sempre – ó sim, teus beijos, que falta me fazem, tão doce eles eram. Queria tanto que voltasse tudo como era antes, toda noite deitado em meu peito, adormecia ali mesmo. Sinto falta de ver teus desenhos, o seu sorriso quando brincávamos com teus carrinhos, quando dizia ser meu herói e dava todos aqueles pulos do sofá. Mas mudamos, quando voltar a ser meu menininho, voltarei a ser sua eterna menininha. Que bobagem fizemos em nos afastar pra amadurecer! Gostava daqueles jovens, hoje não mais, estão mudados, adultos chatos, normais demais. Volta, meu menininho, se prometer voltar o levarei a sua praia favorita, pra acariciar os pés na areia da beira-mar. Bagunçar-te o cabelinho ajeitadinho. Para que o mar te beije, te renove, te traga de volta para mim.
        Éramos felizes assim… Que saudades tenho. Desculpe-me, mas o rapaz pelo qual me apaixonei ficou pra trás, ele se esqueceu de vir para o futuro junto a mim. Você havia dito pra eu amadurecer, que ia fazer o mesmo, veja só o que deu. Não gostei do adulto que se tornou, está monótono, por isso não te escrevi por estes tempos. Peço desculpa por não falar isso olhando em teus belos olhos, peço desculpas por partir assim também, não é do meu feito ir embora assim, mas será necessário. Irei à busca do meu menininho, ele precisa de mim. Descobri que o amo, da forma que era…
       Perdoe-me, escrevo-te estas palavras com o mar de lágrimas encharcando meus olhos, deixo-as cair neste papel, com este fim cheio de mágoas, dor. Não queria mesmo que fosse assim. Peço-te também, que não me procure mais, deixe eu esquecer, por favor, por favor.
       Não sei como farei isso, mas farei, esquecerei, seguirei minha vida, assim, aquela mesma adolescente que fui há dois anos atrás, quando me conheceu.
                                                         Tua eterna, apaixonada, menininha.
               P.S.: Eu te amo, partirei pra você encontrar seus sapatos.
        
                                                      

mardi 16 juin 2015

Uma carta pra você que me procura.

Ler ouvindo: Thousand Years.


Eu sei que você está aí fora, em algum lugar, eu sei. Eu sinto a sua vontade de me encontrar tão grande quanto a minha de ser encontrada. E eu já amo você, sem nem saber quem é. Porque Deus sabe e Ele me ensina, com toda a minha fidelidade, honrar nós dois, mesmo antes de ser sua. E o meu coração palpita só de tentar inventar o teu sorriso. E o meu friozinho na barriga desperta só de pensar no dia em que os seus olhos - que serão meigos e gentis - cruzarão com os meus.

Parafraseio este soneto de Felipe Heiderich para perguntar-lhe: "Onde estás, querido amado? O que fazes? O que pensas? Será que oras por mim?"

Eu oro todos os dias por você. Oro para que o nosso Deus te dê sabedoria e paciência para esperar por mim, também. Pra que Ele te faça sentir, assim como eu, que eu estou esperando você hoje, assim como estarei amanhã e quanto tempo for preciso. Que você sonhe com os meus olhos que sorriem e com meu sorriso que encara. Que você faça planos bonitos pra me encaixar no teu futuro e saiba de antemão que eu tenho um ou dois parafusos a menos que me fazem meio singular e me ame assim.

Que você saiba que às vezes tenho crises de riso sem motivo e sou uma ótima companheira pra falar nada com nada e morrer de rir. E é assim que quero que nossa vida seja, cheia de riso. Que seu bom humor ria das minhas caretas estranhas e eu ria das suas piadas sem graça. Que a gente ria de nós mesmos em meio ao caos. E que eu possa segurar sua mão firmemente, oferecendo-lhe todo o meu amor nos dias mais difíceis.

Eu serei as palavras de ânimo pro teu coração cansado e você será o empurrãozinho pra minha alegria transbordar nos dias de desânimo. Serei a sua coluna para tudo suportar ao teu lado e você será o cabeça que pensa com os pés no chão quando minha mente de menina viajar demais. Seremos uma bela dupla de três: Você, eu e Deus.

Certamente, muitas mulheres passarão pela sua vida. Muitas tentarão ficar, mas você saberá que não sou eu. Por favor, saiba. No tempo certo, Deus guiará seus passos até mim, eu sei que sim. Seja na padaria, no ponto de ônibus, em outra cidade, em uma noite de verão beira-mar, a gente se encontra, eu sei. E vai ser lindo.

E você vai olhar pra mim e vai sorrir, sem nem saber o porquê. E o meu coração vai reconhecer as palpitações que eu tanto provoquei sonhando acordada com esse dia. E a gente vai saber. A gente sempre sabe. Quando é pra ser, a gente sente lá no fundinho, como um sussurro de Deus que adoça o coração e acalma a tempestade.

E Ele vai cuidar de cada passo da nossa caminhada. E eu vou te mostrar esse texto e vamos rir dos meus versos de menina boba, mas os seus olhos vão me acolher com o brilho que eu imaginei e estarão cheios de lágrimas quando me ver vestida de branco.

E a gente vai construir um lar. E você vai trocar as lâmpadas enquanto eu decoro a sala-de-estar. E você vai pendurar o quadro do corredor e eu vou cuidar pra não ficar torto. E você vai me olhar todos os dias com a ternura com que ninguém jamais me olhou. E eu vou te oferecer como café da manhã os meus sorrisos mais sinceros. E você vai cantar pra eu dormir e eu vou te acordar com os meus versos. E o nosso amor vai ser mais um desses Best Sellers que Deus escreve na vida de quem permite, porque a gente permitiu. Eu permito. Honro minhas escolhas e espero que você honre as suas.

Talvez eu já te conheça, talvez não. Talvez você me conheça, talvez não. Mas, Deus nos conhece e Ele é o melhor roteirista do mundo. Eu, que tanto gosto de escrever, dessa vez entreguei pra Ele a caneta e, tenho certeza, que cada capítulo me surpreenderá e me trará a convicção de que tudo valeu a pena.

Enquanto isso, permaneço lhe honrando. Escrevendo os versos da Amada de Cantares que aguarda resposta. Orando por você, com meu coração entregue nas mãos do nosso Deus, tornando-me o que Ele quer que eu seja. Deixando que ele me aprimore como a melhor versão de mim mesma e te amando, da forma mais linda que um ser humano pode amar o outro: Esperando.

"[...] Eu tenho amado você por mil anos... E amarei por mais mil."

 Com amor, de quem te espera fielmente,
Sua  - desde já - amada, 
Sunshine.



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