Vigiava distante o rapaz magro e alto que corria debaixo da chuva, carregando sua jaqueta, enquanto falava com certo número de interrupções ao telefone. As gotas pingavam na janela do carro e ali ficavam nervosas, inconstantes, até que o próprio peso acumulado as levasse ao chão. Sozinha. O silêncio pode ser, por vezes, a morada perturbadora de todo o barulho que há em nosso interior. O rapaz virou a esquina e sumiu. O frio começava a chegar, como chegou todos os anos. O cheiro do cardigan que eu vestia me fez estremecer ao voltar ao último frio que fez. Éramos todos outros. Outras cabeças, outras bocas, outros olhos, outros corpos. O cardigan guardava o mesmo cheiro de quando éramos aqueles outros do passado. Esse foi o óbvio. O que me veio, como sempre, para que gaste nessas letras e faça-o lê-las: o que somos é aquele outro do passado do que virá. Perdoe-me. Simplifico: aqui estamos para que no futuro digamos o quanto mudamos. Parece-nos ridículo, quando posto assim, em frase arrumada. Mas é o que fazemos a vida toda, incansavelmente. Entraram no carro sem dirigir-me palavras. Ou que eu não as tenha ouvido. O carro pôs-se em movimento. O alto do prédio iluminado me dá uma pontada no estômago, de repente. Passei por ali incontáveis vezes, exatamente naquele lugar. O ângulo, porém, do qual olhei o prédio me remeteu a sensação nunca mais sentida de minha infância. Ele definitivamente havia mudado de tamanho. Mas prédios são feitos de concreto, não podem diminuir. Espelho de uma realidade novamente observada. Considero a vida um triângulo de cabeça para baixo: crianças são demasiado sábias. Crescem. Adultos, conformam-se, matam-se de trabalhar, pagam os impostos. Após o tempo no escuro, voltam a enxergar. Vividos. Sábios. Os prédios foram reflexo. Criança, via um mundo infinitamente grandioso. Crescer tornou-o pequeno, foi diminuindo, as possibilidades, as descobertas, os “impossíveis”… Foi como ver Peter Pan em um terno em seu escritório, observando o retrato da esposa e dos filhos, depois de um longo dia de trabalho, tentando engolir o último comprimido de analgésico da cartela, enquanto pensa naquelas contas que estão para vencer.
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adstera
jeudi 4 juin 2015
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