samedi 27 octobre 2012

Lembranças do melhor de nós

Tenho no meu colo um álbum de fotografias. Antigas e algumas poucas recentes. Apenas nostálgicas. Este, dentre os inúmeros, é o meu preferido. Porque, ao contrário dos outros, é o único que eu consigo me sentir realmente viva. Essas imagens guardam memórias. Guardam sorrisos. E também guarda você. Dizem que é esse tipo de coisa que nos faz seguir em frente, de olhar para trás e não se arrepender. Aconteceu. Ou melhor, ao invés de acontecer, não aconteceu. Nós não acontecemos. Mas ei, você seria capaz de olhar para essa foto, esta aqui, e lembrar-se de como eu sorria? Bom, não posso negar, eu fui feliz. Eu sequer me preocupava se amanhã estaríamos juntos ou não. Eu nem sabia com o que me preocupar da vida. No máximo se você chegaria de viagem sexta à noite ou sábado de manhã. E era fácil: quando a saudade batia mais forte, nem sexta nem sábado... quinta de tardezinha você já estava aqui. Obrigada, eu dizia, obrigada pela sua boa vontade de me fazer sorrir.
Passo a página, e nessa foto aqui ainda somos pequenos. Alguns poucos anos, que juntos somaria pouco mais de uma década. Doze anos eu acho: cinco meus, sete seus. É sim, olha a data aqui. Aniversário da sua mãe. Ela ainda estava bem jovem, com os cabelos volumosos de um tom de castanho que, durante toda a minha infância, brilhou muito aos meus olhos. Não acredito, olha aqui, esse viagem à praia foi inesquecível.  E nós, que mágico, como mudamos. Eu gosto mesmo é dessa outra aqui. Está até um pouco embaçada, deve ser poeira. E sabe por quê essa foto é assim, tão especial? Nela, eu poderia resumir nós dois. Mesmo com o fim que tivemos, essa aqui diz do que nós fomos uma vida inteira juntos e não de quando o deixamos de ser. 
Abraçados. Aqui você vê, meu rosto é sereno, eu usufruí dos melhores sonhos. Você sorri até mostrar quase todos os dentes. Tinha acabado de perder o último de leite. Praticamente um homem. Ou quase. Sob o seu pé, uma bola murcha, é aquela. Na foto nota-se um movimento. Não é possível ver a minha mão por trás da sua cabeça. Mas meus olhos denunciam. Eu amava te surpreender, mesmo que fosse com uma daquelas molecagens de sempre. O flash veio poucos segundos antes de um puxar seu cabelo. Mas, ainda bem, que bonitinhos, estamos apenas abraçados. 
O resto é detalhe, é lembrança, é história que essa foto não é capaz de contar. 
Esse cachorro no fundo corria em nossa direção. O vira-lata da Dona Margarida gostava mais da gente do que dela. Vinte anos é um grande tempo. Lembro de no mínimo cinco cachorros dela. As flores são lindas. Parece até que sorriem com a gente. Nós também sorríamos às flores. Agora, não tem mais o cheiro adocicado da infância, não há o barulho da natureza: é uma fotografia. Gostei dos mais sensíveis perfumes: dos lisiantos e das rosas do jardim do Seu Marcos, o cheiro da tua pele e da terra molhada depois da chuva. Essa foto existe tudo de nós, em tão pouco de história. É só uma foto. Aqui Jéssica não é mentirosa, Dona Rosa não é fofoqueira nem o Sr. Mário é o mais rico. Nessa fotografia, não se sabe o quanto de ambição ele guardou a vida toda, quantas vezes Dona Rosa já nos deu bronca ou todas as mentiras da vizinha. 
Vinte anos, repito e você sabe, é um grande tempo. 
Os personagens se cobrem por uma névoa que se intensifica à medida que se distanciam do momento do clique da máquina. O tempo serviu para modelar a vida de cada um de nós. Mesmo que hoje separados, essa foto, sim essa aqui, serviu para nos guardar em corpos em plena sintonia. Não há sentimentos expostos ou diálogos escritos. Pode-se até sugerir. Mas para quê?
Essa fotografia dispensa qualquer palavra a mais. Ela se traduz quando éramos, afinal, completos.
Queria te ligar para falar que Seu Marcos faleceu e na sua carta, pediu que a herança fosse distribuída entre os queridos. Estávamos certos, ele disse que nós dois éramos como os filhos que ele nunca teve. Preciso te entregar o que ele te deixou: todas as camisetas e bolas autografadas pelos grandes jogadores de futebol. Espero que ainda goste. Contemplo por longos e demorados minutos a mesma foto, pensando que você poderia estar aqui, mesmo vinte anos depois, rindo desse dia. Choro. Não mais consigo controlar. E também rio, fininho, quase sem me ouvir. A felicidade se mistura com a falta que você me faz. Não existimos mais. A fotografia não responde à minha saudade, a bola continua sob seu pé e minha mão atrás da sua cabeça. Já não sei o que me restou disso tudo. Às vezes penso em como fomos fortes, porque poderíamos ter escolhido nos perdoar e continuar juntos, para um sempre que não teria acabado tão cedo. Seria lindo, se não tivéssemos escolhido o adeus. Aqui está o melhor de nós, os mesmos de sempre: a bola, o último dente de leite, minha tranquilidade e o nosso amor. Vinte anos é muito tempo. Ninguém é mais o mesmo. E ainda assim, nessa fotografia nós conseguimos, enfim. Somos eternos, numa sintonia que, agora, já não existe mais.

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